Rejeitada por bando, arara aprende nova 'língua' e vive há 5 anos união com espécie diferente em buraco milenar

junho 12, 2026 - 09:25
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Rejeitada por bando, arara aprende nova 'língua' e vive há 5 anos união com espécie diferente em buraco milenar
Foto: José Marques Lopes

Quem nunca ouviu o ditado popular de que "os opostos se atraem"? Nos céus de Mato Grosso do Sul, a natureza resolveu provar que a regra também se aplica ao reino animal. Em um dos cenários mais impressionantes do estado, uma arara-canindé (Ara ararauna) e uma arara-vermelha (Ara chloropterus) vivem uma linda história que desafia o comportamento padrão de suas espécies.

Monogâmicas, inseparáveis e observadas juntas há cerca de cinco anos, elas formaram um casal extremamente raro dentro de um buraco milenar localizado no município de Jardim (MS). O relacionamento chama atenção imediatamente de quem visita a reserva, principalmente pelo contraste de cores: enquanto uma exibe penas azuis e amarelas vibrantes, a outra ostenta uma plumagem vermelha intensa.

Na vida selvagem, essas aves costumam formar pares apenas com indivíduos da própria espécie. Mas, nesse caso, o instinto deu lugar a uma forte conexão. "Um amor que desafia as cores e surpreende quem visita", resume Bergson Sampaio, que acompanha de perto a rotina das aves na reserva.

A Ave que Precisou "Aprender uma Nova Língua" para Ser Aceita

A chegada da arara-canindé ao Buraco das Araras aconteceu há cerca de sete anos. Na época, ela era uma completa estranha em um território totalmente dominado pelas araras-vermelhas, conhecidas na biologia por seu comportamento territorialista e agressivo com invasores.

De acordo com Bergson Sampaio, a recepção inicial foi hostil. "As vermelhas tentaram expulsar ela durante seis meses." Porém, a canindé mostrou que estava determinada a ficar e desenvolveu uma estratégia surpreendente: com o passar do tempo, ela passou a reproduzir sons muito parecidos com os das araras-vermelhas.

Ao mudar sua forma de comunicação, a ave deixou de ser vista como uma ameaça. "A vocalização dela ficou bem próxima da vocalização das vermelhas. Elas passaram a aceitar sua presença." Aceita pelo grupo, ela foi além: conquistou o coração de uma das moradoras locais e, desde então, as duas se tornaram parceiras de vida.

Cinco Anos de União e o Mistério dos Filhotes

Diferentemente de outros animais, as araras são conhecidas por serem estritamente monogâmicas. Quando escolhem um parceiro, tendem a permanecer juntas até o fim da vida. É exatamente isso que os guias e pesquisadores testemunham há meia década: as duas compartilham o mesmo ninho, realizam voos sincronizados e cuidam uma da outra todos os dias.

Apesar do longo relacionamento, até hoje não há registro de filhotes. A guia da reserva, Salete Cinti, explica que a diferença física entre as duas espécies pode dificultar o processo natural de reprodução. A arara-vermelha é consideravelmente maior que a canindé, o que torna o acasalamento fisicamente complexo dependendo de qual delas seja o macho ou a fêmea.

Além disso, do ponto de vista genético, eventuais filhotes dessa união seriam híbridos. No mundo das aves, esse tipo de cruzamento costuma gerar indivíduos com severas dificuldades reprodutivas ou até mesmo estéreis. No entanto, a ausência de descendentes parece não interferir em nada no forte vínculo afetivo observado entre elas.

O "Mundo Perdido" de Mato Grosso do Sul

Essa história de amor improvável tem como pano de fundo um dos lugares mais emblemáticos do ecoturismo brasileiro. O Buraco das Araras é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Trata-se de uma gigantesca dolina (cratera formada pelo desabamento do solo) com cerca de 100 metros de profundidade e 500 metros de circunferência.

Formada ao longo de milhões de anos, a cratera é um verdadeiro refúgio ecológico que abriga mais de 150 espécies de animais silvestres, incluindo jacarés, serpentes, macacos e dezenas de pássaros. Nas imensas paredes rochosas do local, cerca de 120 araras-vermelhas encontram o ambiente perfeito para viver.

Para os turistas que visitam a RPPN em busca das belas paisagens, o casal interespécie virou a atração principal. Ver as duas voando lado a lado deixa claro que, de vez em quando, a própria biologia gosta de abrir uma exceção para criar suas próprias regras.