Bebê nasce de homem trans no Hospital da Mulher e caso inédito no SUS em estado do Nordeste chama atenção

junho 30, 2026 - 17:00
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Bebê nasce de homem trans no Hospital da Mulher e caso inédito no SUS em estado do Nordeste chama atenção
Divulgação/Governo da Paraíba

Uma história de pioneirismo, superação e muito afeto marcou o sistema público de saúde da Paraíba neste mês de junho de 2026. O nascimento da pequena Iara, na capital João Pessoa, registrou o primeiro caso na rede estadual de saúde de uma bebê gerada por um homem trans, Daniel Valentim, em um relacionamento com uma mulher trans, Gisele Castro.

O casal, que reside no município de Esperança, no Agreste paraibano, planejou cada detalhe da chegada da filha, enfrentando uma jornada complexa que envolveu desde a interrupção de tratamentos de saúde até o acompanhamento de uma gestação de risco.

O Desafio da Disforia e a Pausa nos Hormônios

Gisele, que é médica veterinária e professora universitária, e Daniel, estudante de Agronomia, estão juntos há quatro anos após se conhecerem pela internet. O sonho da paternidade e maternidade começou a ser traçado em 2022, mas a gravidez só foi concretizada no final de 2025. Para que o processo fosse possível, ambos precisaram interromper suas respectivas terapias hormonais, o que trouxe desafios psicológicos profundos.

A pausa nas medicações faz com que características físicas anteriores retornem temporariamente, um processo que pode engatilhar a chamada disforia de gênero (o desconforto com o próprio corpo). Gisele explicou que, ao contrário do que muitos pensam, as pessoas trans não se tornam estéreis pelo uso de hormônios:

“O sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter”, relatou.

Gestação de Alto Risco e a Busca por Acolhimento

O acompanhamento pré-natal da família começou em Campina Grande e foi classificado como de alto risco após Daniel receber o diagnóstico de trombose. Durante o processo, eles contaram com o suporte do ambulatório especializado para pessoas transexuais do Hospital de Trauma da cidade. No entanto, a insegurança sobre como seriam acolhidos pela equipe plantonista na hora do parto fez o casal buscar alternativas.

No oitavo mês de gestação, com a intermediação do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, o casal transferiu o atendimento para o Hospital da Mulher, em João Pessoa, referência em atendimento humanizado para a comunidade LGBTQIA+.

O parto ocorreu de forma segura e bem-sucedida na unidade da capital. Daniel expressou o alívio e a felicidade com a escolha: “O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito”.

Rede de Apoio Familiar e Mensagem contra o Preconceito

Diferente de muitos cenários de rejeição, a chegada da bebê Iara foi celebrada com festa pelas famílias dos novos pais. As avós paterna e materna foram as primeiras a visitar a recém-nascida, garantindo uma rede de apoio sólida para o casal neste novo ciclo.

Gisele reforça que trazer o caso a público é uma maneira de educar a sociedade e redefinir conceitos tradicionais sobre o ambiente familiar.

“A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Às vezes, você tem um casal heteronormativo, mas que tem violência e deixa a desejar no sentido da fraternidade. Queremos mostrar que não precisa ser homem cis e mulher cis para se ter uma família”, concluiu a veterinária.